Uma empresa de criptoativos fundada e sediada em Campina Grande, no Agreste da Paraíba, se envolveu em uma polêmica financeira com suspeita de atraso de pagamentos de locação de ativos digitais. Denúncias feitas por clientes nas redes sociais deram início ao caso, que teve um novo desdobramento na segunda-feira (6), com aúnncio da investigação pelo Ministério Público da Paraíba.

Conheça a Braiscompany

Idealizada pelos sócios Antonio Neto Ais e Fabrícia Ais, a Braiscompany é especialista em gestão de ativos digitais e tecnologia blockchain. A empresa faz a gestão dos ativos digitais de clientes que desejam ter lucros no mercado através da locação desses ativos e desenvolve diversas soluções em tecnologia.

O que a empresa faz?

A Braiscompany desenvolve soluções em tecnologia blockchain, que é a base da tecnologia dos criptoativos, como o bitcoin. Também desenvolve startups com projetos em aplicativos, sistemas, robótica avançada, machine learning e entre outras tecnologias.

Na área de gestão de ativos digitais, a empresa atua com contrato de locação de ativos digitais.

Como funciona o sistema de criptoativos?

De acordo com Juarez Batista, empresário no setor de tecnologia e investidor desde 2016, o sistema de criptoativos funciona a partir de uma moeda digital, como o bitcoin, por exemplo. “Essas empresas [como a Braiscompany] pegam o bitcoin do cliente e ficam transacionando (comprando e vendendo) outras criptomoedas para gerar uma porcentagem de lucro por mês”, explica o especialista ao afirmar que o lucro de 7% a 8% prometido é inviável.

Ao decidir entrar na área de criptoativos, o cliente compra a moeda digital e saca para fazer a própria custódia. Porém, outros optam por empresas como a Braiscompany para realizar o investimento com criptoativos.

A Braiscompany atua com locação de ativos digitais, através de um contrato que dura 12 meses. Em cada mês, o cliente recebe os aluguéis mensais sobre o seu ativo, conforme o desempenho das operações da empresa naquele período.

Entenda a polêmica

No final de dezembro de 2022, o ator paraibano Lucas Veloso expôs situações negativas nas redes sociais sobre o CEO e fundador da Braiscompany, Antonio Neto. O artista disse que sofreu um prejuízo por não ter o retorno financeiro prometido pela empresa. O valor seria investido em forma de patrocínio para um filme de Lucas.

O representante da Braiscompany negou a informação diversas vezes. Mas, o que seria apenas um problema pontual com Lucas Veloso, acabou levando clientes a relatarem atrasos nos pagamentos dos investimentos.

Além de Lucas, outros clientes relataram que a Braiscompany estaria atrasando os pagamentos do rendimento em cima do valor investido na empresa. Os clientes têm a opção de sacar ou não o valor, mas mesmo sem escolher o saque, os pagamentos não estariam caindo.

Que problema teria causado o atraso de pagamentos?

Os primeiros atrasos teriam sido provocados por uma questão técnica, de acordo com a Braiscompany. O desenvolvimento de um aplicativo, criado para otimizar os processos internos e de comunicação, teria provocado a necessidade de redução de funções do sistema anterior ainda na fase de testes. Por conta disso, segundo a Braiscompany, os pagamentos estavam lentos.

Ainda de acordo com a empresa, depois do atraso ocasionado pelos testes, a Binance (corretora de criptoativos), passou a travar as operações e limitar a capacidade de pagamento a 10% do necessário, a cada 10 dias. A Braiscompany afirma que conseguiu aumentar o limite, mas a Binance voltou a restringir os mesmos pedidos anteriormente solicitados.

O que dizem os órgãos de investigação?

O Ministério Público da Paraíba (MPPB) vai apurar denúncias contra a empresa de criptoativos Braiscompany. O procedimento foi instaurado no dia 26 de janeiro e veio à público no dia 6 de fevereiro através de nota oficial divulgada pelo MPPB.

De acordo com a nota, o promotor de Justiça de Campina Grande e diretor-regional do MP-Procon, Sócrates da Costa Agra, está apurando denúncias de alguns investidores que não estariam recebendo as remunerações acordadas em contratos com a empresa Braiscompany.

A imprensa entrou em contato com a Comissão de Valores Mobiliário (CVM), autarquia responsável por fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores mobiliários no Brasil sobre uma possível apuração do caso.

De acordo com a assessoria do CVM, o órgão não pode dar detalhes de investigações de casos específicos. No site da autarquia não consta nenhum processo investigatório aberto contra a empresa.

O que diz a Braiscompany?

A Braiscompany divulgou uma nota com esclarecimentos sobre o caso para a imprensa. A empresa afirma que está fazendo uso de “todos os mecanismos legais e de reserva para honrar os compromissos contratualmente agendados”. Diz, também, que paralelo aos esforços legais, “outras providências já foram tomadas que, por medida de segurança e orientações, não podemos revelar“.

No dia 17 de janeiro, a empresa divulgou uma nota de esclarecimento direta aos clientes, afirmando que mantém a transparência e que segue mantendo contato com os clientes apenas por meios oficiais. A empresa, que tem cinco anos de existência, promete apresentar inovações, apesar da crise.

Após divulgação da abertura da investigação do MPPB, a Braiscompany, por meio da assessoria de comunicação, informou no dia 6 de fevereiro que apenas o setor jurídico da empresa vai se posicionar sobre o assunto. O g1 entrou em contato com o jurídico e aguarda retorno.

O que diz a Binance?

Procurada, a Binance enfatizou que “atua em total colaboração com as autoridades para coibir que pessoas mal intencionadas utilizem a plataforma”. Em nota, a corretora informou, por meio da assessoria de imprensa, que “não realiza quaisquer ações em contas que não sejam devidamente embasadas nos termos e condições, contratos e políticas vigentes e aceitos por todos os usuários. Todos os usuários da Binance no mundo têm acesso 24h, 7 dias por semana, à Central de Suporte da Binance, que oferece atendimento em dezenas de idiomas”.

“A exchange ressalta que tem uma equipe de investigação de renome mundial, com ex-agentes que trabalham em constante coordenação com autoridades locais e internacionais no combate a crimes cibernéticos e financeiros, inclusive no rastreamento preventivo de contas suspeitas e atividades fraudulentas.”

Quanto os clientes perderam?

A advogada Larissa Gatto, que representa 35 clientes da Braiscompany em um processo judicial, alega que essas 35 pessoas perderam pelo menos R$ 180 milhões.

Ela afirma que na conta da Braiscompany na operadora Binance, não existem mais fundos. A conta recebeu 7203 bitcoins ao longo de cinco anos e a mesma quantidade saiu, aproximadamente 870 milhões de reais, segundo Larissa.

“Como justificativa que a empresa deu é de que Binance esta travando as transferências. Eu resolvi rastrear as carteiras para saber se era verdade. Procurei a BlockSeer que já fez análise de mais de 200 carteiras da Braiscompany e enviei as carteiras dos meus clientes para eles. Quando o cliente fecha contrato com a Braiscompany eles dão um código de wallet para que seja transferido em cripto. Rastreamos e chegamos até esta conta, que existe desde 2018, teve 6891 operações e sua última ocorreu no dia 19/01/23 e se encontra zerada desde então”, explica a advogada.

Ela questiona porquê a Braiscompany não processa a Binance e também não demonstra os fundos dentro da sua carteira principal.

A advogada afirma ainda que hoje existem mais de 250 processos diferentes na Justiça contra a empresa, além de relatos de pessoas que venderam bens para investir na Braiscompany e estão hoje em uma situação muito difícil.

Informações com G1 Paraíba

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Last Update: 9 de fevereiro de 2023