Nossas Redes Sociais

Clinton Medeiros

Clinton Medeiros

O conhecimento dos Profetas da Chuva é debate nas universidades

Entretenimento

O conhecimento dos Profetas da Chuva é debate nas universidades

Sertão

Uma tradição de mais de 200 anos, que passa de geração em geração e que ainda hoje sobrevive no Sertão da Paraíba e em outras regiões áridas do Nordeste brasileiro, principalmente nos roçados, nos assentamentos e entre pequenos produtores da agricultura familiar. Um conhecimento empírico, nascido da observação de sinais da natureza. Tudo para responder a perguntas que poderão definir o sucesso da próxima colheita. Estes são os profetas da chuva, pequenos agricultores e apicultores que, sem nenhum outro tipo de tecnologia afora suas próprias experiências, conseguem antever com relativa segurança como vai ser o próximo inverno.

São técnicas diversas. Que precisam ser realizadas em tempos distintos. Algumas observações começam ainda em junho ou julho do ano anterior, para um inverno que vai de janeiro a junho de cada ano. Não há descanso, portanto. Mal termina um, já se começa a analisar e a estudar o período de colheita do ano seguinte.

Ademais, cada agricultor se especializa em formas específicas de analisar a natureza. E, eles garantem, não se trata de sorte, de crendice, de qualquer tipo de simpatia.

“É um cuidadoso diálogo com a natureza”, ensina Sílvia Maria de Lima, de 49 anos, agricultora e apicultora de Catolé do Rocha, Sertão da Paraíba.

Moradora do assentamento Frei Dimas, zona rural do município, ela explica que aprendeu as técnicas com o seu pai, também agricultor e apicultor, e esse já havia adquirido o conhecimento de gerações anteriores. Ela destaca que tudo se resume a uma intrínseca relação entre natureza e pessoas do campo.

“A natureza é muita sábia. Se você souber observá-la, ela vai lhe orientar”, prossegue ela.

Sílvia ensina que a chave da questão é descobrir se o ano que se aproxima vai ser de inverno ruim ou bom, e se as chuvas vão surgir precocemente ou apenas tardiamente. A partir dessas respostas, no entanto, uma série de decisões precisarão ser tomadas.

Em Catolé do Rocha, por exemplo, a região é de muitas serras, e a quantidade de chuva vai interferir no local e no tempo do plantio. “Se é ano de muita chuva, tem que plantar na terra de serra, para fugir dos alagamentos. Se é ano de pouca chuva, tem que plantar na terra de baixo, para aproveitar a água que escoa”, prossegue Sílvia.

Outro ponto é que, num ano de inverno fraco, o plantio tem que acontecer imediatamente, nos primeiros sinais de chuva. “Não dá para esperar muito. Não pode desperdiçar chuva”, explica. Mas, em anos de inverno forte, a dinâmica muda. “Quando o inverno é bom, tem mais tempo de plantio. Com sorte, a gente consegue até duas colheitas num mesmo ano”.

Sobre seus acertos recentes, Sílvia orgulha-se: “Nos últimos cinco anos, eu não errei nenhuma”.

A agricultora e apicultora, entretanto, faz uma alerta: 2023 não vai ser um bom ano para os moradores de Catolé do Rocha. “Este ano vai ser de apenas uma colheita. E nem todo mundo vai ter acesso a ela”, lamenta, destacando em seguida que as observações da natureza têm curta abrangência e dizem respeito a apenas aquela localidade específica e não ao Sertão como um todo.

No caso de Sílvia, ela se concentra em cinco sinais em especial. Um deles é a floração do pau d’arco, um tipo de ipê da região que começa a dar flores entre julho e agosto. Se as plantas florarem todas por igual, é sinal de bom inverno, mas se isso acontecer de forma irregular o inverno não vai ser bom.

“Se não flora, não chove. Tem que plantar rápido. As pessoas têm que ficar espertas. Se demorar muito a plantar, não vai lucrar”, resume.

Outros dois exemplos, que segundo Sílvia demonstram a sintonia da natureza com seu entorno, estão no coco do catolé e na resina dos angicos, uma árvore nativa da região. O coco é uma rica fonte de alimentos e que pode ser guardado por longos períodos. Já a resina do angico é comestível e serve de alimento para macacos que vivem no Sertão. Se ambos surgirem em abundância nos meses anteriores ao período de chuva, é sinal de inverno ruim.

“É a natureza lhe dando substâncias para você aguentar a seca”, resume.

Navegando com a natureza

Basílio Pordeus Neto tem 61 anos e mora no Sítio Curralinho, zona rural de Sousa. Há mais de meio século, já observa os fenômenos da natureza, após ser ensinado pela mãe quando tinha apenas dez anos. Ele resume de forma poética a sua ocupação: “Eu me criei na roça, agricultor desde nascido”.

Entre outros tipos de observações, ele diz que gosta de analisar os astros, garantindo que esses têm muito a ensinar também sobre o tempo. Há toda uma lógica envolvida, que faz bastante sentido para quem tem a experiência dele. Ao tentar explicar como tudo funciona, no entanto, nem sempre o ensinamento é de fácil entendimento.

Ainda assim, ele repassa um dado mais fácil de ser captado. “Quando o mês de janeiro entra na lua nova ou na lua crescente, é um bom sinal. É sinal de chuva e boa colheita”, garante.

Outra observação está ligada à posição de alguns planetas. Ele ensina: “De Sousa, o planeta Vênus é normalmente visto ao Sul. Mas quando ele aparece ao Norte, é sinal de que vai chover no Sertão”.

Basílio Pordeus explica também que na região não existe essa história de quatro estações. São seis meses de verão, que vai de julho a dezembro, e seis meses de inverno, de janeiro a junho. Os seis últimos meses de um ano, portanto, são de análises para tentar antecipar o que vai acontecer nos seis primeiros meses do ano seguinte.

“A natureza é uma seta indicativa e a gente precisa aprender a navegar por ela”, filosofa.

A mãe de Basílio, ele conta, morreu com 90 anos. Antes, ela já aprendera com a bisavó dele, e assim por diante. “Faz pelo menos 200 anos que esse conhecimento está com a gente”, orgulha-se.

E se as previsões em Catolé do Rocha são pessimistas, Basílio Pordeus é puro otimismo para o inverno de 2023 em Sousa:

“Já tem chuva no poente de nossa região”, poetiza Pordeus.

Irmão de Basílio, João enumera algumas outras técnicas que a família utiliza para bater o veredito sobre se o inverno será bom ou ruim. Ele explica, por exemplo, que antes do período de chuvas a terra costuma sugar a água que tem na superfície. Isso significa que, ao levantar uma pedra, se ela estiver suada na parte de baixo, é sinal de chuva em breve.

Ele cita ainda que a floração do mandacaru acontece sempre três dias antes da chuva e que cupim gordo, robusto, com asas, é sinônimo de chuva em oito dias. Tem também a biratanha, uma planta do Sertão que, quando põe frutos no mês de outubro, prenuncia o inverno no ano seguinte.

“Nós somos natureza. Tudo é natureza. Quando percebemos esses sinais, já começamos a preparar os cortes de terra para o plantio”, anima-se.

Resgate da cultura sertaneja

O professor Caetano José de Lima, do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) em Sousa, é um entusiasta da sabedoria popular promovida pelos profetas da chuva. E há alguns anos ele promove no campus de Catolé do Rocha da instituição um encontro entre os profetas.

Ele é professor da disciplina de Apicultura e Meliponicultura e sobrinho de um profeta da chuva do Ceará, onde eventos do tipo já acontecem há quase 30 anos. Foi de lá que veio a inspiração para o encontro paraibano, que acontece sempre no mês de janeiro.

Os profetas presentes dão suas previsões e, ao término do período de inverno, fazem uma avaliação sobre quem acertou e quem errou nos prognósticos.

“O índice de acerto é alto”, garante Caetano.

De toda forma, não se trata de uma mera competição para ver quem acerta mais. De acordo com o professor, o encontro é um resgate da cultura popular e a preservação de um saber tradicional que é cultivado a partir de um conhecimento empírico que o sertanejo possui sobre sua região.

Ele explica que todos os anos consegue reunir algo em torno de 30 profetas. Mas a ideia é realizar um censo pelo Sertão, já que o número de observadores da natureza deve ser muito maior. “Ainda é um evento pequeno, porque é restrito à região”, explica.

Outro diálogo que Caetano espera fazer um dia é com os meteorologistas. Promover um intercâmbio entre ciência e empirismo. Trocar experiências dos dois lados. Ele destaca, inclusive, que muitos especialistas já aderiram ao debate, mas admite que essa questão entre ciência e tradição ainda provoca conflitos.

Apesar das dificuldades, contudo, ele é da opinião que o encontro anual cumpre um papel importante:

Informações com G1 Paraíba

Clique para comentar

Deixe seu comentário

Mais Notícias em Entretenimento

TOPO